Já pensou no seu avô sendo seu calouro? Aposentado da UFSM será bixo do neto no curso de Direito

Já pensou no seu avô sendo seu calouro? Aposentado da UFSM será bixo do neto no curso de Direito

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Já pensou no seu avô fazendo faculdade? Ou melhor: já imaginou ele sendo o seu calouro? Para Arthur Dalla Porta Friedrich, de 19 anos, essa não é uma pergunta hipotética. Na próxima segunda-feira (02), quando as aulas começarem na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ele verá o avô, Mauro Nascimento Pereira, de 62 anos, ingressar como "bixo" no curso de Direito.

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O encontro de gerações no campus não é por acaso. Arthur, egresso do Colégio Militar de Santa Maria, entrou na UFSM no ano passado. Foi através de uma colega de turma, que também ingressou pelas vagas suplementares para pessoas com 60 anos ou mais, que ele percebeu a oportunidade para o avô.

Eu sabia que o vô tinha esse interesse. Fui correr atrás, perguntei como funcionava e contei para ele. Ele seguiu o conselho e conseguiu entrar – conta Arthur, orgulhoso.

Agora, a hierarquia familiar ganha uma camada acadêmica.

É uma experiência única ser veterano do próprio avô. Já brinquei que vou ganhar carona todos os dias – diverte-se.


A prece e a calma de quem já viveu muito

Mauro dedicou 33 anos à UFSM como técnico-administrativo, passando pelo Hospital Universitário e pela Reitoria. Ao decidir voltar como aluno, ele percebeu que a maturidade é um trunfo. Enquanto jovens enfrentam a pressão de cursinhos e investimentos familiares, Mauro buscou serenidade.

Quem tem mais de 60 anos já vai mais calmo. No dia da prova você faz uma prece, pede calma para analisar as questões – explica. 

Mesmo considerando a prova extensa e difícil, o desempenho de Mauro chamou atenção: ele obteve uma pontuação superior a de diversos candidatos aprovados no curso.

A aprovação, no entanto, quase passou despercebida. Ao conferir o gabarito, Mauro achou que sua nota estava abaixo do ponto de corte e "desencanou". Dias depois, enquanto falava com a irmã ao telefone, ouviu o irmão comentar ao fundo que o nome de Mauro estava no listão.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Fiquei sabendo por terceiros. Eu já nem contava mais. Na hora fui olhar e era só felicidade. Até ganhei faixa de bixo, porque é um momento especial para todo mundo – conta ele, lembrando que, no seu primeiro vestibular, o ritual era diferente, com a listagem entregue na Câmara de Vereadores e com a locução na voz icônica de Montagner (Roberto Montagner, locutor e diretor de programa da Rádio Universidade) anunciando os nomes.


Direito: um assunto de família

O curso de Direito não é novidade na casa da família. Além de avô e neto, a namorada e a mãe de Arthur também cursam a graduação. Para Mauro, o curso não é uma busca por sustento, já que é aposentado, mas uma ferramenta para a vida.

Sempre tem um problema na família que precisa de um advogado. Hoje, com os questionamentos sobre direitos que a gente nem sabe que tem, ter alguém na família agiliza as coisas – explica.

A notícia da aprovação gerou uma verdadeira festa nos grupos de WhatsApp da família. Arthur, que vinha atuando como um "mentor" informal do avô – dando dicas sobre a prova e a estrutura da redação –, lembra da confusão de desencontros no momento da confirmação.

Eu já estava muito feliz só com a ideia dele tentar. Quando veio a notícia, o vô me ligou de casa para contar, mas eu estava envolvido com outras coisas e não vi a chamada na hora. Só descobri depois, quando vi as mensagens no grupo da família. Foi uma sensação muito legal, quase como se eu tivesse sido aprovado de novo – relata o neto.

Foto: Vinicius Becker (Diário)

Apesar da empolgação, Mauro confessa que sentiu o desafio de sair da zona de conforto: 

Dá um sentimento de se sentir deslocado, de pensar: "podia estar em casa, dormindo até as 11 horas, e estou optando por voltar todos os dias". Mas eu quis isso. Quis a Federal, onde trabalhei tanto tempo, para aproveitar o convívio e o aprendizado.


Trote e convivência

Sobre o convívio com os colegas que poderiam ser seus netos, Mauro demonstra tranquilidade. Ele acredita que o jovem de hoje é mais aberto à convivência e combate ao etarismo. Inclusive, já confirmou que não pretende fugir das atividades de recepção.

Vou no trote, sim. Hoje, é um "trote solidário", uma coisa mais amiga para quebrar o gelo. Não tem por que não ir. Eu e os jovens estamos sempre discutindo atualidades e política, e agora vamos começar a falar de Direito. Só vamos cuidar para deixar o "juridiquês" para as aulas e não cansar o resto da família nas festas – finaliza o calouro, entre risos.

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